Protagonista de uma das maiores polêmicas recentes – aparentemente, elas têm sido muitas –do ramo automotivo, o fruto do conceito Type 00 foi oficializado pela Jaguar. Convenientemente chamado de Type 01, ele adota o batismo para criar justamente a sensação de que uma nova era se inicia na marca inglesa: adeus às linhas sinuosas que, em geral, caracterizaram seus produtos (excetuando-se logicamente os períodos de preferência do consumidor pelas retas marcantes, como na época do XJ6), em favor de contornos menos curvos.
Na não tão importante opinião deste colunista que vos escreve, o resultado definitivo é mais convincente que o do protótipo, mas sigo preferindo a escola tradicional da montadora. Talvez seja um pouco de saudosismo, assumo, ainda que eu não tenha lá tanta idade. Mas me parece que há uma razão pela qual o clássico E-Type tenha sido apontado pela crítica como o carro mais bonito de sua época – e assim validado pelo público ao longo do tempo.
Neste mesmo sentido, não consigo imaginar o Type 01 recebendo a mesma ovação. A sensação é a de que, como muitos outros produtos, ele poderia ter sido projetado e apresentado por qualquer outra montadora, que não fosse a sua, e a ligação entre criador e criatura originais não seria notada. Talvez, também por isso, a Jaguar tenha optado por alterar logotipo e emblema...
O que quero dizer, com os apontamentos acima, é que há uma aparente falha na exploração do legado que o nome “Jaguar” carrega(va). Por óbvio, a quase centenária história da marca não é marcada somente de sucessos ou belas criações, mas sua reinvenção por completo deixa de lado uma reputação que se construiu ao longo de quase um século.
O sucesso dos restomods (modernizações feitas sobre carros antigos) e a onda retrô sobre elétricos talvez pudessem ser inspirações mais óbvias e bem-sucedidas. Afinal, se ele se mostra somente como “mais um”, por que pagar tanto para levar para casa algo genérico, que qualquer outra marca sem tradição oferece por um preço bem menor? Ele não tem preços ainda, é verdade, mas um sedã com interior minimalista, 1.030 cv e 720 km de autonomia estimada vendido por ela não deve ser acessível. Na China, contudo, o Denza Z9S Flagship tem 1.209 cv, autonomia estimada em 1.100 km e preços na casa dos 350 mil yuans, algo próximo de R$ 260 mil em conversão direta. Valeria a pena pagar bem mais apenas por um logotipo (que agora significa “nada”)?
Porsche dentro deste questionamento

O ponto-chave é o fato de uma montadora tanta tradição deixa-la de lado em favor de uma reformulação que esquece totalmente seu passado. Ou seja: seu grande diferencial está sendo deixado de lado em troca de... quê, mesmo? Peguemos como exemplo a Porsche. A marca alemã contornou a crise financeira e se tornou uma organização gigante ao lançar o SUV Cayenne, ainda hoje seu carro-chefe. Mas o sucesso do utilitário foi embasado na tradição criada pelo 911, o icônico modelo que se tornou sinônimo de esportivo: era a oportunidade se comprar um carro familiar produzido pela mesma companhia que fazia um dos veículos mais icônicos da história.
Na ocasião, a Porsche soube aproveitar o que tinha. Além do legado de produto/marca, usou as linhas do 911 como inspiração para criar seu SUV. Recentemente, porém, alguns parecem ter esquecido um pouco dessa importância, com a empresa focando em elétricos (também por foça da Lei, diga-se) e deixando de lado parte dos esportivos (o cancelado fim de Boxster/Cayman). Os números comerciais não nos deixam mentir: de janeiro a setembro de 2026, ela vendeu 178.532 unidades (-16% em relação ao mesmo período de 2025), das quais 59.586 foram do Cayenne (-2%), o líder interno, logo à frente do Macan (51.025 exemplares/-21% de variação).

O “nine-eleven” somou 42.217 vendas, sendo o único produto a crescer: 12%. O sedã Panamera conquistou 13.715 garagens (-35%), enquanto o elétrico Taycan foi para a casa de 8.699 famílias (-31%). Afinal, se posso encontrar carros com design e filosofia “genéricos”, por que gastar tanto em um emblema? Não digo que sejam produtos ruins, feios ou mal acabados, mas o legado ajuda bastante a convencer o consumidor de que seu produto vale a pena.

Seguindo uma receita um tanto similar ao que já vimos, a Bentley apresentou seu primeiro SUV (claro) elétrico (óbvio). Chamado Torcal, ele usa a base do Porsche Cayenne Electric e tem perfil bastante parecido com o do alemão: aparentemente, as portas dianteiras são iguais e se alteram apenas algumas estampas da carroceria. O interior também entrega a origem, exibindo superfícies do primo germânico. Pasmem: até o volante é parecido. Seria o suficiente para convencer o público de alto luxo? Talvez... os responsáveis pelo projeto estudam mercado, consumo, tendências e leis muito mais do que nós, meros críticos. Mas, novamente, se não houvesse o logotipo da Bentley, talvez fosse difícil identificar o Torcal como um produto seu.
O alento recente, porém, veio pelas mãos inesperadas da McLaren. Com longa tradição nas pistas, mas uma atuação “pequena” (se comparada às rivais, principalmente) nos esportivos de produção, a marca inglesa oficializou o McL 6GT. Ainda um conceito, ele faz alusão ao projeto MG6 criado por Bruce McLaren em 1969 – e que jamais chegou às ruas. Com design mais clássico de esportivo, poucas invencionices descartadas e um bem-vindo câmbio manual, ele parece ser a tentativa da própria empresa em criar seu legado. Afinal, depois do F1, a companhia apostou na gama recente, com produtos com 720S e Senna, e colheu seus louros. Mas, em um oceano de estilos modernosos e propulsores elétricos, as soluções simples e o V8 a gasolina surgem como uma gota de “quero ser diferente, nem que seja um pouco”.
São, nestes casos, maneiras diferentes de criar e manter um legado. Recomeçar, refazer, reinventar. Mas será que romper completamente com o passado é melhor caminho para se pavimentar o futuro?

![[Coluna] - Reinvenção ou fim de legado?](https://ahqfcjapqxdavhivucpb.supabase.co/storage/v1/object/public/images/artigos/jaguar-type-01-1-1791664838755.jpg)
